Blackbyrd McKnite (Rio das Ostras 2010)

Um dos grandes privilégios que a vida me deu foi o de ter estudado no Centro Livre de Aprendizado Musical (CLAM) no meio da década de 70. Essa escola formada por Hamilton Godoy, Luiz Chaves e Rubinho Barsotti do Zimbo Trio e do saudoso Chumbinho (professor de bateria) foi um pólo de criatividade que produziu gente de alto calibre para a cena musical da cidade e do país. Tinha no máximo 17 anos e como já se sabe, estava mentalmente abduzido por tudo que fosse guitarra. Antes da minha aula com o professor Candido Serra ficava aquecendo na sala ao lado. Numa dessas ocasiões apareceu na janela um cabeludo magro que teceu o seguinte comentário: Porra bixô! Puta som! ‘Ce toca pra carai... Dei risada, eu sabia que estava longe disso, mas achei o cara além de gentil uma figura peculiar e continuei o papo.

“De quem você gosta?” Metralhou. “Eric Clapton”... Para minha surpresa ouvi essa resposta que traduzia a unicidade de sua pessoa: Eric Clapton? Porra é uma bosta... Você toca muita mais que ele... Entre ofendido, pasmo e até mesmo transtornado, consegui produzir algum grunhido tipo: Hein... Pirou? Ele continuou disparando sem piedade da minha parvice momentânea: Cara você toca igual ao Blackbyrd McKnight... Blackbyrd o que? Tentei argumentar. E o chumbo voava: BLACKBYRD MCKNIGHT do Headhunters que toca com o Herbie Hancock? Ahnnn o que? Quem, Acuma??? De que planeta saiu esse cara? Hancock o que? Mc o que? E o cara não aliviava: Não é possível! Você toca igual ao cara e nunca ouviu! Ta tirando onda com minha cara... Como é seu nome? André, disse e ele: Porra! Eu também!

Na mesma hora ele foi buscar no carro o LP importado Man-Child do Herbie Hancock e pos a agulha na primeira faixa: Hang Up Your Hang Ups... Eu não conseguia achar o “um” daquele inferno de groove, quanto mais tocar aquele troço... Ele pegou minha guitarra e me ensinou... Não sabia se ria ou se chorava... Além de o disco ser um absurdo de bom, quem era aquele guitarrista que conseguia tocar aquele veneno todo assim tão sem esforço? Pois é. Senhoras e senhoras guitarristas do Planeta Terra: Esse foi meu primeiro contato com André Geraissati, um dos mais espetaculares músicos que já tive o privilégio de ouvir, ver e aprender. Nos anos que se seguiram e graças à influência dele desenvolvi uma verdadeira obsessão por tudo que fosse referente ao Dewayne Blackbyrd McKnight. Na oitava edição do Festival de Rio das Ostras no estado do Rio de Janeiro, um outro camarada meu, o baixista “extraordinaire” T.M. Stevens fez as honras. Os dois se estouraram de rir com essa história! Monsieur Andrê: Obrigado por mais essa velho, que Deus te abençoe! Igual a vossa excelência nem em Saturno! !

 


André Christovam, Paulo Moura, Mark Ford e Mario Fabre
Ouça Blue and Lonesome -

Eu toco guitarra há mais de 30 anos e por mais que eu me dedique ainda existem certos momentos em que nem todo o estudo do mundo te prepara para o que está para acontecer. Essa foto representa um deles. O André Christovam Trio foi convidado para acompanhar Mark Ford no 3º Encontro Internacional de Gaitistas no SESC Pompéia em São Paulo no primeiro fim de semana de Dezembro de 2003. Minha função era reproduzir ao vivo o trabalho de guitarra dos seus dois cds solo. O músico em questão é o irmão dele: meu antigo professor no GIT e ídolo Robben Ford...
Alguns pares de sapato são grandes demais para os nossos pés, tocar à lá Robben Ford com o Mark foi incrível... Ter o Mestre Paulo Moura como convidado especial elevou o evento a enésima grandeza!

 


Fickle Pickle
(esquerda para a direita – André Christovam, Nelson Brito e Paulo Zinner).

Essa foto foi tirada na porta do extinto Jazz & Blues em Santo André na época em que nós estávamos gravando o cd para a Interdisc no Estúdio Cameratti.
São os últimos dias de existência da banda. No dia 29 de Agosto de 1993 após o último show da temporada de lançamento do disco no Centro Cultural Vergueiro em São Paulo, eu anunciei o meu desligamento do grupo. Começamos juntos em 26 de junho de 1976 e 17 anos e centenas de momentos mágicos depois ficou evidente que aquela música que fazíamos não tinha mais apelo para mim. O fato do resultado final disco ter ficado muito aquém de como soávamos ao vivo uma década antes foi preponderante na minha decisão.
Ainda hoje sinto que Nelson, Paulo e eu vivemos uma trajetória musical então que não é mais possível de ser vivida nos dias de hoje.
O Fickle Pickle era mais que nossa banda era mais que uma família. Era nossa vida e o som que a gente fazia era o sangue que bombeava um coração grande, mas muito ingênuo!!!

 


Albert Collins & André Christovam
(Backstage no Palace – SP - 1992)

Fui apresentado ao Albert Collins pelo meu “Mentor em Assuntos Blueseiros” Dan Duhran em Dezembro de 1980 enquanto morava em Los Angeles. Nunca tinha visto ou ouvido nada igual a ele antes. Ofereci para carregar seu amplificador (um imenso Fender Quadraverb de 4X12”) do seu carro até o palco e recebi como pagamento um gole de brandy “B&G”. Virei seu devoto e roadie até voltar para o Brasil em Agosto de 1981. Ficamos quase oito anos sem nos falar após isso e essa falta de comunicação acabou me proporcionado uma das minhas estórias favoritas...
Essa foto foi tirada no camarim do Palace em São Paulo antes de eu dar uma canja com ele e os seus Icebrakers no Free Jazz de 1992.

 


Junior Wells no Bourbon Street

Nessa ocasião eu senti que todos os momentos em que eu havia passado com os meus velhos lps e um par de fones de ouvido aprendendo a tocar blues tinham valido a pena. As quatro da manhã, após o show no Bourbon Street, Junior demitiu seu guitarrista e pediu para o César Castanho meu telefone... Ele me convidava a fazer parte de sua banda pelo resto da turnê e voltar com ele para os Estados Unidos, afinal, como filho dele eu tinha a obrigação de estar com ele na estrada... Na mesma época o meu Trio tinha uma seqüência imensa de shows e meus parceiros contavam comigo para ganharem a vida... Com muita dor no coração tive de recusar o convite... Desde então toda vez que eu ouço o disco “It´s My Life Baby” tenho uma crise de consciência e arrependimento!!!

 


Andrew Odon & André Christovam
Aeroanta (SP) - Novembro 1991

Foto do show de lançamento do lp “The 2120 Sessions”.
Andrew “Big Voice” Odon foi uma das mais importantes vozes da cena blues de Chicago. Cantor com mais de três discos solos e participação em trabalhos de Jimmy Dawkins e do fantástico Earl Hooker.
Havíamos nos conhecido por ocasião do lançamento do “A Touch of Glass” um ano antes no Legend´s em Chicago. Nossa parceria foi registrada no Chess Studios em Julho de 91 no meu terceiro álbum. A tour brasileira foi o desenvolvimento lógico desse encontro... Infelizmente essas seriam suas últimas performances. No dia 22 de Dezembro, vinte dias após o término dos nossos shows, ele veio a falecer após um acidente de carro nas ruas de Chicago.

 

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